Porto Alegre, 31.07.2010  
Nevada de 2006: Neve granular, pelotas de neve e flocos

 Afinal, nevou ou não em Porto Alegre ?

O 4 de setembro de 2006 começou com céu ensolarado na capital gaúcha, mas no decorrer da manhã nuvens se formaram e eis que no começo da tarde os porto-alegrenses foram surpreendidos pela precipitação de pequenas bolas e cones de gelo brancos. Imediatamente se desatou a polêmica. Era neve ou não ? A MetSul Meteorologia não tem dúvida. O que ocorre em Porto Alegre e outras cidades da área metropolitana tratou-se de neve granular. Como o Brasil é um país pouco acostumado a fenômenos extremos de frio, o fenômeno confundiu até meteorologistas. De forma equivocada houve quem afirmasse ter se tratado a precipitação de chuva congelada, afirmando que a neve somente poderia se produzir em flocos. Justamente por ser um fenômeno pouco frequente e de caráter localizado no Rio Grande do Sul na maioria das vezes, existe um grande desconhecimento ainda sobre a neve e suas formas, o que não raro induz erros de interpretação mesmo entre experimentados especialistas.

 A ciência Meteorologia registra inúmeros tipos de neve e de precipitação de gelo além da clássica forma de cristais de gelo em flocos (cristais hexagonais) que quando vistos de perto mais parecem "estrelinhas". Mas nem toda a neve vem na forma dos tradicionais flocos, ao contrário do afirmado até por alguns meteorologistas. A Sociedade de Meteorologia dos Estados Unidos (AMS), por exemplo, editou há mais de quarenta anos um glossário meteorológico que até hoje é reputado como o de maior respeitabilidade entre os meteorologistas norte-americanos, contendo mais de doze mil termos e designações. Entre eles está a chamada neve granular.

Existem diferenças entre neve granular, chuva congelada, chuva congelante e outros fenômenos. Os conceitos abaixo são da Sociedade Norte-Americana de Meteorologia (American Meteorological Society):

Grãos de neve (também conhecidos como neve neve granular): Precipitação na forma de partículas muito pequenas e opacas de gelo, ou equivalente à forma sólida de chuvisco. Lembram as pelotas de gelo na aparência externa, mas é mais achatada e alongada. Geralmente apresentam um diâmetro inferior a 1 milímetro. Não racham nem pipocam ao atingir uma superfície dura. É indiscutível que a neve granular cai em pequena quantidade e se origina de nuvens estratificadas ou até de um nevoeiro. Grãos de gelo ou pelotas de neve : Tipo de precipitação consistente de pelotas de gelo. Podem se apresentar na forma esférica, irregular ou até, raramente, no formato cônico. Os grãos de gelo geralmente pipocam ao atingir uma superfície dura e provocam barulho no impacto. Agora internacionalmente reconhecidos, as bolas de gelo incluem basicamente duas formas de precipitação. conhecidas nos Estados Unidos como 1) "sleet" e 2) granizo miúdo.

Graupel: Partículas de neve mais pesadas, geralmente chamadas de pelotas de gelo.

Chuva congelante (freezing rain): Chuva na forma líquida que congela no impacto com a superfície após impacto. É necessário que as gotículas da chuva estejam super resfriadas e que a temperatura do solo se situe abaixo de zero para que se produza o congelamento.

Chuva congelada ou de gelo: Chamada de sleet nos Estados Unidos, é muito comum na América do Norte. Trata-se de uma precipitação de gelo mas que não se confunde com o granizo. Costuma ocorrer nos limites entre uma área com chuva e outra com neve e por isso se diz que é um estágio que geralmente antecede a neve na sua forma clássica de flocos. O gelo tende a cair em formatos absolutamente irregulares.

Como se vê há uma grande semelhança entre neve granular, pelotas de gelo, chuva congelada e graupel por apresentarem um processo de formação muito semelhante. Entretanto, o fenômeno ocorrido em Porto Alegre e outras cidades da área metropolitana não pode ser chamado nem de chuva congelada muito menos de chuva congelante. A chuva congelante ou freezing rain, para os norte-americanos, ocorre na forma líquida e congela apenas após o impacto com a superfície. Já a chuva de gelo, congelada ou sleet não tende a apresentar a cor branca ou opaca, vista em Porto Alegre nesta segunda-feira, mas sim é incolor.

O meteorologista Eugenio Hackbart recorda que, como a água, a chuva é incolor, inodora e insípida. Logo, chuva congelada não poderia apresentar a coloração branca ou opaca que se viu na precipitação registrada nesta segunda-feira de frio histórico em Porto Alegre. Conforme o Diretor-Geral da MetSul, Meteorologia o que se produziu em Porto Alegre e cidades ao redor foi neve na forma granular que se apresentou nos tipos de grãos e pelotas de neve, de acordo com a dimensão dos grãos precipitados nas diferentes cidades da área metropolitana. Hackbart explica que a neve granular se produzi a partir da combinação de gotas de chuva super resfriadas e flocos de neve. "No caminho entre a base das nuvens e a superfície os flocos de neve se misturam à água muito gelada da chuva e dão origem aos grãos". O processo é diferente, assim, tanto do granizo como da chuva congelada.

Resta a pergunta ? Como o fenômeno pode ter ocorrido com temperatura tão elevada. Em 1994, houve diversas pancadas de neve granular na capital gaúcha com temperatura variando entre 7 e 9 graus. Seis anos depois, durante a histórica onda de frio, voltou a nevar na forma granular em bairros de Porto Alegre no começo da tarde do dia 13 de julho de 2000 com 9 graus de temperatura. Nesta segunda-feira, o fenômeno se produziu com temperatura variando entre 9 e 10 graus. "Se existem milhares de casos documentados de neve em flocos com temperatura na superfície de até cinco graus positivos, não são exigidos valores de temperatura próximos de zero para que se produza a neve na forma granular, especialmente porque esta resulta da combinação de chuva e flocos de neve", explicou o meteorologista Eugenio Hackbart.

No caso deste dia 4 de setembro, a camada atmosférica exatamente acima de Porto Alegre estava muito fria e impediu que os grãos derretessem antes de atingir a superfície. A espessura da camada em 500 hPa, importante indicador para o frio e a ocorrência de neve, era de 5.280 sobre a área da capital gaúcha, o menor valor desde julho de 2000 (ver sondagem acima). A parcela seca do ar à tarde sobre a região foi outro fator que os grãos de neve não passassem a forma líquida. No momento em que nevou, a umidade relativa do ar na Grande Porto Alegre oscilava entre 47% e 53%. Por fim, as nuvens de elevado desenvolvimento vertical, assim como em 1994 e 2000, foram determinantes para a ocorrência do fenômeno. Em regra, precipitações de neve em flocos ou em grãos no Rio Grande do Sul com temperatura acima de zero grau estão associadas à nebulosidade de maior desenvolvimento vertical como Cu, TCu e até CBs. Trovoadas chegaram a ser registradas na tarde desta segunda-feira em São Leopoldo, apesar da temperatura de 9 graus. Em setembro de 2005, São Joaquim registrou neve com trovoada (thundersnow), rara ocorrência até mesmo nos Estados Unidos e que não era observada há décadas no Sul do Brasil.


Alexandre Amaral de Aguiar - 05/09/2006 19:36:51
 
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