Em 29 de agosto de 2005 o furacão Katrina atingiu a costa sul dos Estados Unidos com força arrasadora. Mais de mil pessoas morreram e os prejuízos foram estimados em dezenas de bilhões de dólares. A cidade de Nova Orleans foi inundada após os diques de contenção contra enchente terem se rompido. A tempestade acabou sendo o maior desastre natural da história norte-americana. Mas ao desastre climático seguiu-se um outro. Um desastre de gerenciamento dos serviços de emergência. A ajuda às milhares de vítimas do furacão chegou tarde e de forma desorganizada. Seis meses depois do ciclone tropical, o mundo toma conhecimento dos motivos para que o Katrina não apenas fosse o maior desastre natural até agora nos Estados Unidos mas também o maior desastre de gestão de emergência da nação norte-americana. O presidente norte-americano George W. Bush, apesar de sempre ter afirmado que jamais fora advertido da dimensão do desastre que estava por atingir o sul dos Estados Unidos, foi alertado pela FEMA (Agência Federal de Gestão de Crise) da magnitude do furacão Katrina um dia antes que o ciclone devastasse regiões inteiras junto ao Golfo do México. A agência de notícias Associated Press obteve a gravação de uma vídeo conferência entre Bush, que estava no seu rancho no Texas, e a equipe técnica da FEMA. No trecho em questão, ao lado do presidente Bush e do secretário de Segurança Interna, Michael Chertoff, em 28 de agosto, um dia antes do desastre, o então diretor da Fema, Michael Brown (foto acima à esquerda), aparece afirmando que o furacão seria "enorme". "Este é um bem grande", alertou Michael Brown um dia antes que o Katrina tocasse a terra, deixando mais de 1.300 mortos. Nas imagens, vê-se ainda Brown expressando sua preocupação a Bush em relação à capacidade do Superdome - o estádio fechado de Nova Orleans onde milhares de moradores se abrigaram. "O Superdome está cerca de 3,6 metros abaixo do nível do mar (...) não sei se o teto está concebido para resistir a um furacão de categoria 5", disse ele.
Na gravação, Bush aparece em seu rancho em Crawford no Texas (foto ao lado). Durante a teleconferência, o presidente não faz uma única pergunta, limitando-se a dizer: "Estamos completamente preparados". "Enviaremos todos os nossos recursos e os meios necessários de que dispomos após o furacão", garantiu. Alguns dias após o furacão, o presidente americano comentou que ninguém poderia ter previsto seu impacto, assim como a ruptura dos diques em Nova Orleans. Em 23 de fevereiro passado, porém, a Casa Branca assumiu a resposta tardia ao desastre. O relatório chamado "A resposta federal ao furacão Katrina: lições aprendidas" afirma que o desastre de Nova Orleans "expôs as falhas significativas na nossa preparação para eventos catastróficos e na capacidade (do governo americano) para enfrentá-los". Washington só enviou tropas federais à Louisiana dias após a passagem do furacão, devido às discussões com a governadora Kathleen Blanco sobre quem teria autoridade sobre as forças estaduais."
Veja o vídeo da conferência de Bush obtido com exclusividade pela Agência Associated Press
O Katrina não poderia ter sido um melhor teste para a capacidade de resposta dos sistemas de emergência dos Estados Unidos desde os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, quando três mil pessoas morreram em Nova York, Washington e Pensilvância. O governo do presidente George W. Bush não passou no teste. O Departamento de Segurança Doméstica, criado no ano de 2002 para proteger o país de ataques terroristas e desastres naturais, também não. Não havia equipes de resgate suficientes na região para atender a muiltidão de meio milhão de desabrigados. Três dias depois da passagem do furacão Katrina, apenas 2.800 homens da Guarda Nacional, frequentemente mobilizados para esse tipo de emergência, haviam chegado à cidade. O ideal seriam 12 000 homens.
O Katrina escancarou ainda uma grave crise social no Sul dos Estados Unidos. Em sua coluna no New York Times o colunista Nicholas Kristof comentava que "a tragédia também revelou a relutância ou inaptidão da administração Bush em ajudar os americanos mais pobres. As cenas em Nova Orleans me lembraram do sofrimento que eu vi depois de uma tempestade que matou 130 mil pessoas em Bangladesh em 1991 – com a diferença de que o governo de Bangladesh mostrou mais urgência para tentar salvar os cidadãos mais vulneráveis". E prossegue o colunista do Times, dizendo que "o furacão Katrina também revelou um problema bem maior: o número crescente de americanos presos no ciclone infinito da pobreza". Corpos foram abandonados nas ruas. Policiais se suicidavam em Nova Orleans diante da falta de ajuda que tardava em chegar. O Superdome que foi usado como abrigo acabou destelhado e virou palco de estupros e homicídios.
O grau de desinteresse do presidente dos Estados Unidos pelo que ocorria no sul norte-americano era tal que assessores seus tiveram que preparar um DVD com um compacto da cobertura da imprensa sobre as conseqüência do furacão para que ele olhasse no vôo (ver imagem ao lado) que o levou para Nova Orleans logo após os diques terem se rompido e a cidade ter inundado. A popularidade de Bush despencou e comissões passaram a investigar no Congresso a resposta da sua administração ao desastre do Katrina. Uma precária cadeia de comando prejudicou os esforços nos Estados Unidos para se lidar com as conseqüências do furacão Katrina, de acordo com documento do Congresso norte-americano que analisou as falhas na resposta ao desastre. O Government Accountability Office (GAO) culpou o Secretário de Segurança Interna, Michael Chertoff, por não assumir o controle da tão criticada operação de emergência. Os autores do relatório disseram que atrasos no envio de ajuda à zona da catástrofe poderiam ter sido evitados por uma indicação rápida de uma figura da cúpula do governo para liderar a resposta à crise. Foram dirigidas críticas particularmente para Chertoff, que não declarou o furacão "incidente de importância nacional" até 24 horas depois da passagem da tempestade.

Nas 24 horas que antecederam a chegada do furacão Katrina ao sul dos Estados Unidos, a MetSul Meteorologia realizou no site da Defesa Civil do Rio Grande do Sul um trabalho de monitoramento ininterrupto da tempestade no Golfo do México. Se o presidente norte-americano se disse surpreso com a magnitude do desastre, o público que acompanhou o trabalho da então Climatologia Urbana (hoje MetSul Meteorologia) soube muitas horas antes da chegada do furacão Katrina à costa que ele seria um desastre para a região. Faltando cinco minutos para seis da tarde do dia 28 de agosto de 2005, publicamos com exclusividade até hoje no Brasil um boletim do Serviço Meteorológico Nacional dos Estados Unidos (NWS) que jamais foi exibido em qualquer página do NWS ou do NOAA que previa um cenário quase cataclísmico para a região na rota do Katrina. O que você vai ler a seguir é real. Trata-se do alerta meteorológico distribuído no final da manhã do dia 28 de agosto de 2005 pelo escritório do NWS na cidade de Nova Orleans. À época, comentávamos no site da Defesa Civil que "os termos do alerta são de impressionar e não surpreendem diante da magnitude da tempestade que se aproxima do sul dos Estados Unidos". A seguir o original em inglês e a tradução do alerta obtido pela equipe da MetSul Meteorologia junto a meteorologistas especialistas em ciclones tropicais com quem mantemos parceria técnica nos Estados Unidos: WWUS74 KLIX 281550NPWLIX URGENT - WEATHER MESSAGE NATIONAL WEATHER SERVICE NEW ORLEANS LA 10:11 AM CDT SUN AUG 28 2005 DEVASTATING DAMAGE EXPECTED HURRICANE KATRINA MOST POWERFUL HURRICANE WITH UNPRECEDENTED STRENGTH...RIVALING THE INTENSITY OF HURRICANE CAMILLE OF 1969. MOST OF THE AREA WILL BE UNINHABITABLE FOR WEEKS...PERHAPS LONGER. ATLEAST ONE HALF OF WELL CONSTRUCTED HOMES WILL HAVE ROOF AND WALL FAILURE. ALL GABLED ROOFS WILL FAIL...LEAVING THOSE HOMES SEVERELY DAMAGED OR DESTROYED.THE MAJORITY OF INDUSTRIAL BUILDINGS WILL BECOME NON FUNCTIONAL.PARTIAL TO COMPLETE WALL AND ROOF FAILURE IS EXPECTED. ALL WOOD FRAMED LOW RISING APARTMENT BUILDINGS WILL BE DESTROYED. CONCRETE BLOCK LOW RISE APARTMENTS WILL SUSTAIN MAJOR DAMAGE...INCLUDING SOME WALL AND ROOF FAILURE. HIGH RISE OFFICE AND APARTMENT BUILDINGS WILL SWAY DANGEROUSLY...A FEW TO THE POINT OF TOTAL COLLAPSE. ALL WINDOWS WILL BLOW OUT. AIRBORNE DEBRIS WILL BE WIDESPREAD...AND MAY INCLUDE HEAVY ITEMS SUCH AS HOUSEHOLD APPLIANCES AND EVEN LIGHT VEHICLES. SPORT UTILITY VEHICLES AND LIGHT TRUCKS WILL BE MOVED. THE BLOWN DEBRIS WILL CREATEADDITIONAL DESTRUCTION. PERSONS...PETS... AND LIVESTOCK EXPOSED TO THE WINDS WILL FACE CERTAIN DEATH IF STRUCK. POWER OUTAGES WILL LAST FOR WEEKS...AS MOST POWER POLES WILL BE DOWN AND TRANSFORMERS DESTROYED. WATER SHORTAGES WILL MAKE HUMAN SUFFERING INCREDIBLE BY MODERN STANDARDS.THE VAST MAJORITY OF NATIVE TREES WILL BE SNAPPED OR UPROOTED. ONLY THE HEARTIEST WILL REMAIN STANDING... BUT BE TOTALLY DEFOLIATED. FEWCROPS WILL REMAIN. LIVESTOCK LEFT EXPOSED TO THE WINDS WILL BEKILLED. Leia agora a tradução: WWUS74 KLIX 281550NPWLIX URGENTE MENSAGEM DO ESCRITÓRIO DO SERVIÇO METEOROLOGICO NACIONAL DOS ESTADOS UNIDOS EM NOVA ORLEANS 10:11 DA MANHÃ, HORA CENTRAL DOS ESTADOS UNIDOS, DOM 28 AGO 2005 DANOS DEVASTADORES SÃO ESPERADOS. FURACÃO KATRINA UM DOS MAIS INTENSOS JÁ REGISTRADOS, COM INTENSIDADE SEM PRECEDENTES, RIVALIZANDO EM INTENSIDADE COM O FURACÃO CAMILLE DE 1969. GRANDE PARTE DA REGIÃO VAI SE TORNAR INABITÁVEL POR SEMANAS, TALVEZ MAIS TEMPO. PELO MENOS METADE DAS CASAS BEM CONSTRUÍDAS VAI SOFRER DESTELHAMENTO OU DESMORONAMENTO. TODOS OS TELHADOS DE CERÂMICA VÃO SER DESTRUÍDOS DEIXANDO AS CASAS SEVERAMENTE DANIFICADAS OU DESTRUIDAS. A MAIORIA DOS PRÉDIOS INDUSTRIAIS DEIXARÁ DE FUNCIONAR. DANOS PARCIAIS A COMPLETOS ÀS ESTRUTURAS SÃO ESPERADOS. TODOS OS EDIFICIOS DE APARTAMENTO BAIXOS CONSTRUIDOS EM MADEIRA SERÃO DESTRUÍDOS. EDIFICIOS BAIXOS DE CONCRETO VÃO SUPORTAR IMPORTANTES DANOS, INCLUINDO QUEDA DE PAREDES E TETO. ARRANHA CÉUS DE ESCRITORIOS E TORRES DE APARTAMENTOS VÃO BALANÇAR PERIGOSAMENTE A PONTO DE ALGUNS PODEREM DESABAREM. TODAS AS JANELAS VÃO EXPLODIR. DESTROÇOS LEVADOS PELO VENTO VÃO SE ESPALHAR POR TODOS OS LOCAIS E PODEM INCLUIR OBJETOS DOMÉSTICOS E ATÉ VEICULOS LEVES. VEICULOS UTILITARIOS E CAMINHOES MAIS LEVES SERÃO MOVIDOS PELO VENTO. OS DESTROÇOS LEVADOS PELO VENTO CRIARÃO ESTRAGOS ADICIONAIS. PESSOAS, ANIMAIS DOMÉSTICOS E GADO EXPOSTOS AO VENTO VÃO ENFRENTAR MORTE CERTA. FALTA DE ENERGIA DEVE DURAR SEMANAS JÁ QUE A MAIORIA DOS POSTES VAI CAIR E OS TRANSFORMADORES SERÃO DESTRUIDOS. A FALTA DE AGUA VAI TORNAR O SOFRIMENTO HUMANO INCRIVEL PARA OS PADRÕES MODERNOS. A MAIORIA ESMAGADORA DAS ARVORES NATIVAS VAI CAIR OU SERÁ QUEBRADA. APENAS AS MAIS RESISTENTES VÃO SEGUIR DE PÉ, MAS PERDERÃO TOTALMENTE AS FOLHAS. POUCAS PLANTAÇÕES VÃO RESISTIR. GADO DEIXADO EXPOSTO AO VENTO MORRERÁ. O que parecia um enorme exagero e mais uma narrativa sensacionalista, tornou-se uma das previsões meteorológicas mais acertadas da história. Os que não deram ouvido pagaram o preço de terem cruzado os braços diante de um desastre, dando início a um outro, o segundo desastre: o da omissão. |