Porto Alegre, 08.09.2010  
29 de agosto de 2005: Tornado em Muitos Capões

 

  

Durou menos de um minuto, mas parecia uma eternidade. Os moradores da cidade gaúcha de Muitos Capões, norte do Rio Grande do Sul, tiveram suas vidas transformadas para sempre na noite de 29 de agosto de 2005. Passavam das nove da noite quando a pequena cidade a 275 quilômetros de Porto Alegre foi literalmente varrida por um tornado. Como se fosse um trator, o fenômeno deixou um rastro de destruição de quase um quilômetro e cento e cinquenta metros de largura na área urbana do município.

O horror ocorreu em meio à escuridão. Pouco antes do tornado atravessar a cidade, um blecaute tomou conta de Muitos Capões. A noite só era iluminada pelos relâmpagos que acompanhavam a forte tempestade que afetava a região. De repente, em meio ao escuro, um som alto e assustador. Era o tornado que começavam a destruir a pequena comunidade, derrubando casas, jogando carros a uma longa distância e decepando enormes árvores como se fossem pequenos palitos. "Em dois segundos, passou o vento. Quando tirei a coberta, não tinha mais casa", disse o morador Eder Cassiano ao jornal Zero Hora no dia seguinte ao tornado. Na sua casa, nada havia sobrado. Apenas a sua vida que, por um milagre, foi poupada da fúria do vento. O telhado e as paredes haviam sido derrubados. A mobília foi levada pelo turbilhão de vento.

  

O desespero tomou conta da pequena comunidade. O que eles testemunhavam naquele momento não fazia parte nem dos seus piores pesadelos. O que levou anos para ser construído fora arrasado em segundos. Muitos Capões havia deixado de ser uma cidade para se transformar no que mais parecia o cenário posterior a uma batalha numa guerra. Foi como se uma bomba tivesse sido jogada sobre a cidade. Postes de luz foram quebrados ao meio e arrastados. Árvores foram arrancadas e os carros estacionados na rua acabaram atirados a dezenas de metros de distância.

Quando chegou a cinzenta manhã do dia 30 de agosto de 2005 a tragédia se relevou em toda a sua extensão. Se as cenas da noite lembravam a de um campo de batalha arrasado, a luz da manhã evidenciava que Muitos Capões não tinha sida atingida apenas por um forte temporal, mas por uma catástrofe natural. As imagens eram de uma cidade arrasada. Das casas havia sobrado apena o piso. Árvores pareciam ter sido cortadas por uma enorme faca. Automóveis tinham se transformado em um amontado de sucata.

O tornado destruiu 83 edificações. Catorze pessoas ficaram feridas. Nenhuma morreu. O prejuízo material chegou a milhões de reais. Setenta por cento da cidade havia sido transformada em ruínas. A rede elétrica havia desaparecido e todos os serviços essenciais colapsaram. Entre as ruínas das residências, somente a estrutura de concreto da agência do Banco Sicredi ficou de pé. O resto era somente destruição e desespero. Moradores não encontravam forças para iniciar a imediata reconstrução. O trauma era generalizado e o choro dos moradores o som mas ouvido.

Um ano depois, Muitos Capões se reergueu. A cidade desde 29 de agosto de 2006 nem de perto lembra aquela da manhã do dia 30 de agosto do ano anterior. As ruínas deram origem a casas novas. Prédios que tombaram foram levantados. Postes que caíram recolocados. O esforço da comunidade, a solidariedade do povo gaúcho e a ajuda governamental permitiram que Muitos Capões voltasse a ser uma cidade, apesar de jamais ter deixado de ser uma comunidade. Nas horas mais difíceis seus moradores se uniram e hoje podem se orgulhar de um município que voltou a existir após a fúria de segundos do vento que ainda permanece como uma cicatriz no íntimo de cada habitante de Muitos Capões.

 Uma hora depois do desastre de Muitos Capões, a equipe da MetSul Meteorologia, que monitorava a tempestade no site da Defesa Civil do Rio Grande do Sul, já confirmava que um tornado havia atingido a cidade. Aquele dia havia sido marcado por temporais em todo o estado gaúcho devido à passagem de uma frente fria e poucos minutos antes do desastre em Muitos Capões um alerta havia sido lançado pela MetSul na homepage da Defesa Civil Estadual sobre o risco iminente de tempo muito severo na área afetada pelo desastre. Naquele momento, as imagens de radar do Ministério da Aeronáutica mostravam núcleos extremamente fortes de instabilidade na região de Vacaria. As fotos da destruição, os relatos dos moradores de que o vento durou segundos e as imagens do radar meteorológico do horário não deixaram qualquer dúvida de que um tornado atingiu a cidade gaúcha.

Conforme o meteorologista Eugenio Hackbart, os danos devastadores numa zona muito concentrada, o vento arrasador de curtíssima duração e a precipitação de granizo associada à ventania foram as primeiras evidências de um tornado na área. "As imagens de radar mostravam células de tempestade típicas das que causam tornados sobre a região de Vacaria no momento da tempestade em Muitos Capões", ressaltou Hackbart. Os índices de instabilidade eram indicados como altíssimos para o Rio Grande do Sul pelos modelos numéricos de previsão nas 72 horas que antecederam o tornado em Muitos Capões. Foi assim que três dias antes a MetSul Meteorologia alertou para o risco de vento com potencial de causar danos estruturais, mas, como sempre, jamais é possível prever com antecedência onde a natureza mostrará toda a sua fúria.

Devido à falta de equipamentos meteorológicos na região e à violência do vento não é possível medir a velocidade alcançada na área atingida pelo tornado que atravessou a localidade, entretanto adota-se para fins de classificação do fenômeno a escala internacional de Fujita que, a partir dos danos observados, proporciona a estimativa da velocidade do vento. Para fins de dimensionamento do fenômeno, a equipe da MetSul Meteorologia entendeu que Muitos Capões foi arrasada por um tornado entre as categoria 2 e 3 na escala de Fujita com vento de 200 a 300 km/h. Conforme a classificação, sob estas condições prédios de alvenaria são destruídos e automóveis arrastados ou parcialmente arremessados pelo vento. Os meteorologistas da MetSul dizer não ter dúvida que se tratou de um dos mais violentos tornados da história do Rio Grande do Sul, se comparando em magnitude ao episódio de Águas Claras em Viamão do dia 11 de outubro de 2000, classificado como um F3 na escala de Fujita pela MetSul Meteorologia.

As imagens deste boletim são cortesia do Governo do Estado do Rio Grande do Sul e da observadora do tempo Jacqueline Estivallet do site Tempo Severo RS.


Alexandre Amaral de Aguiar - 29/08/2006 01:25:39
 
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